A Poesia, o Futebol e a Política

Estava on line hoje pela manhã, estampado na página de abertura do Jornal do Brasil, esse consolador texto de Drummond, escrito em 1982, quando da prematura eliminação da seleção brasileira nas oitavas de final da Copa daquele ano. Fala das derrotas esportivas e do que elas significam, para além das aparências do mundo redondo.

 

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Texto tão consolador, como só a um poeta da grandeza de Drummond para nos fazer sorrir, assim, caindo na real. Ver o mundo como ele é e ver beleza disso.

Um texto que poderia ter sido escrito hoje, tão atual continua sendo hoje quanto o foi na época. Com uma diferença, parece que hoje Drummond não fala mais conosco, brasileiros inconsolados (ou nem tanto, nem todos) por suas derrotas esportivas, parece que hoje Drummond fala mais com os argentinos, verdadeiramente inconsolados de tristeza pela derrota de ontem frente a forte e simpática seleção alemã – inesperada, porém nada vergonhosa derrota, tanto quanto em 1982 foi a nossa. Os argentinos de hoje, como os brasileiros de ontem, nada têm que se envergonhar de seu futebol mesmo, só lastimar a grande falta de sorte, que faz o futebol ser apaixonante e imprevisível do jeitinho que é, à semelhança da vida.

Drummond não fala mais conosco porque não somos mais aquele país e nem aquele povo. Não somos e nem poderíamos ser, já que o tempo nos fez mudar, como não poderia deixar de ser.

Deveríamos então poder dizer que hoje somos melhores. Somos? Estamos? Evoluímos?

No futebol devemos admitir que não estamos melhores, no máximo podemos dizer que somos diferentes, porque o futebol mudou e nós tivemos que mudar com ele.

Na política estamos melhores? Ou “melhor” não é bem um termo para se usar em política. Talvez, então, dizer que “progredimos”. Progredimos? Em qual sentido estamos evoluindo?

No sentido de um capitalismo cada vez mais selvagem e avassalador, sim, nós estamos progredindo. No sentido de tornar mais complexos nossos problemas e tornar mais radicais nossas soluções, sim, estamos progredindo. No sentido de perdermos direitos conquistados em luta social e garantidos pela constituição, como o direito de greve, o direito de livre manifestação e locomoção, sim, infelizmente, parece que estamos evoluindo também para perder algumas dessas duras conquistas sociais. Estamos evoluindo no sentido de uma intolerância cada vez maior com o outro, ou, senão maior, pelo menos mais manifesta, ao ponto de ser comum pelas redes sociais encontrar diálogos com mal disfarçados conteúdos homofóbicos, machistas, racistas e preconceitos de toda espécie. Isso é bom, estamos cada vez mais conscientes de nossas hipocrisias e evoluindo para uma consciência cada vez maior delas. Conseguimos já discernir a hipocrisia no outro, em quem aponta, por exemplo, o dedo para a sujeira de sua cidade enquanto passeia com seu cachorro sem recolher seu coco. Conseguimos também identificar quem é capaz de comprar uma roupa de inverno caríssima para seu “pet”, mas é incapaz de doar um cobertor ou ter um olhar de misericórdia para com um menor na rua. Somos também cada vez mais capazes de identificar quem critica e aponta a violência no outro, sendo ainda mais violento que ele. Somos enfim cada vez mais capazes de discernir a perversidade no outro, o egocentrismo no outro, a ganância no outro, o calculismo no outro, a ironia no outro, senão em nós mesmos, sim, estamos evoluindo para uma quebra de todas as máscaras sociais, e acredito que um dia isso será bom.

Estamos então evoluindo para qual estado democrático? Porque hoje me parece que existem tantas “democracias” no mundo, desde uma de-gradação do fascismo com eleições diretas para presidente até os estados policiais, como parece ser o nosso caso – desafortunadamente, o Brasil me parece estar se transformando num estado policial democrático. Mas nenhuma democracia no mundo é mais perfeita que outra, apenas algumas sociedades parece se dão mais conta e procuram fazer suas profilaxias, que a infelicidade do semelhante e o desequilíbrio na natureza volta até nós cobrando juros. Em se tratando de política e relações políticas, parece mesmo que aquela máxima do Churchill continua valendo, de que a democracia é o pior de todos os sistemas de governo, com exceção de todos os outros.

Sinto falta hoje de uma grande alma como a de Drummond para nos apontar o caminho da real beleza, sinto a falta de uma grande poesia nova para nos consolar, não de nossas mazelas no futebol, mas de nossas derrotas na política, com uma sociedade permanentemente colonizada e que nunca bem resolveu ainda como vai libertar seus escravos.

Todos os dias acordo pensando no que eu poderia fazer para tornar meu entorno melhor, com menos sofrimento até onde possa alcançar. Há muito deixei de acreditar que apenas a caridade, de que ela por si apenas seria capaz de resolver o sofrimento humano. A necessária caridade é apenas uma gota frente ao oceano do despertar da consciência dos indivíduos, que é a descoberta do poder da cidadania com, sobretudo, o também despertar para uma caminhada espiritual. As manifestações foram lindas porque tinham espírito e alma, por isso elas mexeram com todos, de uma ou de outra maneira. Durante meses acreditei nelas acenando com um caminho para um Brasil mais profundo, mas hoje penso que elas chegaram ao seu limite. Porque o povo que elas tinham que acordar, fazendo barulho com seus protestos, esse povo já vai bem acordado e caminha. Muitos dos seus despertos já estavam nas ruas. Muitos hoje estão se colocando em risco nas ruas, talvez além do necessário, sujeitos a levarem um tiro, bomba e apanharem da polícia, sujeitos a serem presos e terem a voz calada por meses ou anos a fio. É preciso saber diversificar as frentes da consciência coletiva em que atuamos, estar na rua é só uma das facetas dos protestos possíveis. E protestar nem é solução de nada, apenas a tomada da consciência. O princípio. Mas o que fazer para desmontar a perversidade que sustenta o mundo, assim, tal qual ele se encontra e se tem mantido. O que fazer?

A gente pensa em ser criativo, mas o samsara é criativo também. Aliás, poucas coisas são mais criativas que o samsara, que o tempo todo vive inventando novas fórmulas de se reinventar, desde o reino dos infernos com sua costumeira violência e opressão, até os píncaros dos céus, com a ganância e o orgulho. A gente pensa usar da inteligência, pensa estudar, planejar, mas o samsara parece comportar também sua própria sabedoria.

É muito difícil ficar comparando os tempos e dizer que este é melhor que o outro. São como os frutos e as cores, existem apenas. Passado, presente, futuro, o que são? Tempos, simplesmente. Talvez só ilusões do tempo do Agora, o tempo permanente e não dual dos budas. Mas se for para dizer que um tempo é melhor que outro, então, escolho o futuro, porque sou otimista, creio no futuro…

 

Amanhã vai ser maior.

 

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