Sonho

 

dryas iulia

 

 

Meninas Sonhadas

 

As três meninas são muito leves

cor de laranja

com seus vestidos de fina gaze

plissados.

 

 

Elas são como três grandes leques

plissados

abrindo ao sol gazes redondas

cor de laranja.

 

 

São muito leves as três meninas

cor de laranja

como brinquedos de papel fino

plissados.

 

 

Posso exibi-las no ar: seus vestidos

plissados

cheios de vento: balões, lanternas

cor de laranja.

 

 

As três meninas são muito leves

cor de laranja:

talvez não sejam mais que vestidos

plissados.

 

 

Talvez não sejam mais do que hibiscos

plissados,

flores de seda, papel de flores

cor de laranja.

 

 

Pétalas tênues, nimbo da lua

cor de laranja

por pensamentos adormecidos

plissados.

 

 

 

 

Cecília Meireles

Outras conversas ao pé do tempo – de água e de vento

Novas leituras e traduções

 

 

Christine Dyrnes

 

 

Ouve-me como quem ouve chover,

nem atenta nem distraída,

passos leves, garoinha,

água que é ar, ar que é tempo,

o dia que não se acaba de ir,

a noite que não chega todavia,

aparições de névoas

a dobrar a esquina,

aparições de tempo

a rondar esta pausa,

ouve-me como quem ouve chover,

sem ouvir-me, ouvindo o que digo

com os olhos abertos para o interior,

dormindo com os cinco sentidos despertos,

chuva de leve, passos leves, rumor de sílabas,

ar e água, palavras que não pesam:

o que fomos e somos,

os dias e os anos, este instante,

tempo sem peso, pesando enormemente,

ouve-me como quem ouve chover,

brilhando no asfalto úmido,

o vapor subindo e vagando,

a noite se abrindo e me olhando,

é você e sua figura de névoa,

você e sua face de noite,

você e seus cabelos, relâmpagos em câmara lenta,

atravessando a rua e cruzando em minha frente,

passos de águas sobre minhas pálpebras,

ouve-me como quem ouve chover,

o asfalto brilhante, você atravessando a rua,

é a neblina vagando na noite,

como quem ouve chover

é a noite dormindo na sua cama,

são as ondas da sua respiração,

seus dedos de água molhando minha fronte,

seus dedos de chama queimando meus olhos,

seus dedos de ar abrindo as pálpebras do tempo,

brotando de aparições e ressurreições,

ouve-me como quem ouve chover,

passam-se os anos, regressa o instante,

ouve seus passos no quarto vizinho?

nem aqui nem lá: ouve-os

em outro tempo que é o agora,

ouve os passos do tempo

inventor de espaços sem peso,

ouve correr a chuva no terraço,

a noite que agora é mais noite no arvoredo,

as folhagens aninhadas nos galhos pelos raios,

vago jardim à deriva

entrando, sua sombra cobrindo esta página.

 

Octavio Paz

 

 

A minha vida se resume,

desconhecida e transitória,

em contornar teu pensamento,

 

sem levar dessa trajetória

nem esse prêmio de perfume

que as flores concedem ao vento.

 

Cecília Meireles

 

 

Christine Dyrnes

 

 

 

soprando esse bambu

só tiro

o que lhe deu o vento

 

Paulo Leminski

 
quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina

 

sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

 

(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

 

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim

 

e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

 

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos

 

acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

 

Viviane Mosé

 

 

Fotos de Christine Dyrnes

Fotos de Christine Dyrnes

 

 

Em que parte de mim ficou

aquela mancha azul?

ou melhor, esta

mancha

de um azul que nenhum céu teria

ou teve o mar?

um azul

que a mão de leonardo achou

ao acaso e inevitavelmente

e não só:

um azul

que há séculos

numa tarde talvez

feito um lampejo surgiu no mundo

essa cor

essa mancha

que a mim chegou

de detrás de dezenas de milhares de manhãs

e noites estreladas

como um puído

aceno humano.

Mancha azul

que carrego comigo como carrego meus cabelos

ou uma lesão

oculta onde ninguém sabe.

 

Ferreira Gullar

 

 

Em vão percorro a cidade

com meus olhos de antes.

As ruas não são as mesmas

e são outros os passantes.

 

Helena Kolody

 

 

Christine Dyrnes

 

 

Lá fora o sol.

Não é mais que um sol

porém os homens o veem

e depois cantam.

 

Eu não sei do sol.

Sei da melodia do anjo

e do sermão quente

do último vento.

Sei gritar até o amanhecer

quando a morte pousa nua

na minha sombra.

 

Choro debaixo de meu nome.

Agito lenços pela noite

e barcos sedentos de realidade

dançam comigo.

Escondo cravos

para escarnecer

de meus sonhos enfermos.

 

Lá fora o sol.

Visto-me de cinzas.

 

 

Alejandra Pizarnik

 

 

Penso na noite como um rio profundo

e lembro coisas deste e de outro mundo.

Outros mundos, aliás, que a vida é vasta

como diversa. E mesmo assim não basta,

 

o que nos faz tecer ainda outras vidas

nas nuvens da alma, e que nos são vividas

com tanta força quanto as outras mais,

em seus sonhos de agora e de jamais

 

(ou melhor: com mais força, pois que estamos

ainda mais vivos no que nos sonhamos).

Penso na noite como um mar sem fim

 

quebrando sombras sobre o cais de mim.

E, enfim, sem esperanças e sem prece,

pressinto a noite que não amanhece.

 

 

Ruy Espinheira Filho

 

 

* * *

 

 

Ao fechar meus olhos
Abro-os dentro dos teus

 

(Octavio Paz)

Christine Dyrnes
 

Eu, cuja única função é lavar palavra suja

 

(Viviane Mosé)

Cruzamentes

 

 

 

 

 

 

 

Silvestre e o Idioma

Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.

Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.

Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebatizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.

(Mia Couto)

 

 

 

 

 

 

Primavera

Ah, quem nos dera que isto, como outrora,
inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudéssemos agora
ver o desabrochar da primavera.

 

Os Perigos do Verão

Era o verão, o seu desassossego.
Era o desejo,
o desejo rompendo da sombra
sem caminho, e doía.

 

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

 

Era o ardor, o mais diáfano
irmão da melancolia.

 

E esse corpo de rosa rescendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço…

 

Era o amor, o espanto
do amor, desarmado
e sem abrigo.

 

A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera… E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço!

(Olavo Bilac)

 

Era o deserto, o deserto à porta;
e fervia.

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

que viagem
ficar aqui
parada

(Alice Ruiz)

 

 

 

 

 

 

Cantar

Cantar de beira de rio:
Água que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.

A Viagem

Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

 

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lábios negros
o sonho de que se gosta.

 

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

 

Pensando no caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas não vem

 

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
de meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

 

Passam luas – muito longe,
estrelas – muito impossíveis,
nuvens sem nada, também.

 

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

(João Cabral de Melo Neto)

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

(…)

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

 

Um dia voltarei à morada das papoulas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.

(Albano Martins)

Femininos

(Hexagrama 56)

A Montanha A Noite A Lua e
O Viajante Estrangeiro e
O Capim A Ocasião e
O Fogo sobre A Montanha e
O Clarão Intenso O Instante e
A Paixão Consumida e
O Viajante Inquieto A Estrada e
A Busca de novo e
A Noite de volta e
A Montanha Imóvel e
A Lua Brilhante outra vez 

 

 

 

 

HunterMoonAlpsDeRosa900

 

 

 

 

Balada…

A moça dizia à lua
Minha carne é cor-de-rosa
Não é verde como a tua
Eu sou jovem e formosa.
Minhas maminhas – a moça
À lua mostrava as suas –
Têm a brancura da louça
Não são negras como as tuas.
E ela falava: Meu ventre
É puro – e o deitava à lua
A lua que o sangra dentro
Quem haverá que a possua?
Meu sexo – a moça jogada
Entreabria-se nua –
É o sangue da madrugada
Na triste noite sem lua.
Minha pele é viva e quente
Lança o teu raio mais frio
Sobre o meu corpo inocente…
Sente o teu como é vazio.

 

 

(Vinícius de Moraes)

 

 

 

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

 

 

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

A pintora

Hoje de tarde
pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas
e comecei a chorar,
até me lembrar de que podia
falar sem mediação com o próprio Deus
daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.
Me agarrei aos seus pés:
Vós sabeis, Vós sabeis,
só Vós sabeis, só Vós.
O bagaço da laranja, suas sementes
me olhavam da casca em concha
na mão seca.
Não queria palavras pra rezar,
bastava-me ser um quadro
bem na frente de Deus
pra Ele olhar.

 

 

(Adélia Prado)

 

 

 

Epigrama

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

 

 

(Cecília Meireles)

Caixa de Pandora

Dois cancioneiros meus irmãos vagando pelo mundo encantado das Esperanças Perdidas
Encontraram uma caixa
Abriram a caixa
O que tinha lá dentro? Além da Beleza encontraram também a Desesperança
A primeira soltaram no mundo e a última guardaram para si
Dois cancioneiros abriram uma caixa com a desesperança no fundo e a única coisa que me ocorre para lhes dizer é de que o Samsara é o Nirvana. Tudo é Um. Despertemos… Agora!
E se juntos conseguimos despertar do sonho da separatividade não será surpresa que um sentimento de unidade nos inunde
E que pensamentos de unidade nos conduzam até ações transformadoras
Não será difícil fazer poemas de unidade
Mover montanhas
Quando for possível meus irmãos
Mudemos mais que mundos
Mudemos nossos destinos

 

 

 

 

 

 

 

 

Canção

No mistério do Sem-Fim,

Equilibra-se um planeta.

 

E, no planeta, um jardim,

e, no jardim, um canteiro;

no canteiro, uma violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,

 

entre o planeta e o Sem-Fim

a asa de uma borboleta.

 

 

 

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês…

 

 

(Fernando Pessoa)

 

 

 

Idílio

Como eu preciso de campo,
de folhas, brisas, vertentes,
encosto-me a ti, que és árvore,
de onde vão caindo flores
sobre os meus olhos dormentes.

Encosto-me a ti, que és margem
de uma areia de silêncios
que acompanha pelo tempo
verdes rios transparentes;
tua sombra, nos meus braços,
tua frescura, em meus dentes.

Nasce a lua nos meus olhos,
passa pela minha vida…
– e, tudo que era, resvala
para calmos ocidentes.
Caminhos de ar vão levando
pura e nua essa que andava
com as roupas mais diferentes.

Olham pássaros, das nuvens,
entre a luz dos mundos firmes
e a das estrelas cadentes.
E o orvalho da sua música
vai recobrindo o meu rosto
com um tremor que eu conhecia
nos meus olhos já levados,
idos, perdidos, ausentes…

(Leve máscara de pérolas
na minha face não sentes?)

 

 

(Cecília Meireles)

 

 

 

O Andaime

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A esperança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha esperança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,
Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

 

 

(Fernando Pessoa)

 

 

 

Marcha

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebraram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns vivos pela tona,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa.
– e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha musica,
meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos tristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lagrima nem grito:
apenas consentimento.

 

 

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

XL

 

Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento,

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem cor nas asas da borboleta,

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor.

 

 

 

(Alberto Caeiro)

Espelhos

Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos,
pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Cecília Meireles


 

Mulher ao Espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
 

 

 

(Cecília Meireles)

 

São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heraclito o Obscuro.
Somos a água, e não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. A sua visagem
muda na água da mutável imagem,
no vidro que muda como o fogo.
Somos o vão rio determinado,
rumo ao seu mar, pela sombra cercado.
Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha moeda.
E contudo há algo que se queda
e contudo há algo que se queixa.
 

 

 

(Jorge Luis Borges)

 

Elogio da sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo de nossa felicidade.
O animal morreu ou quase morreu.
Restam o homem e sua alma.
Vivo entre formas luminosas e vagas
que não são ainda a escuridão.
Buenos Aires,
que antes se espalhava em subúrbios
em direção à planície incessante,
voltou a ser La Recoleta, o Retiro,
as imprecisas ruas do Once
e as precárias casas velhas
que ainda chamamos o Sul.
Sempre em minha vida foram demasiadas as coisas;
Demócrito de Abdera arrancou os próprios olhos para pensar;
o tempo foi meu Demócrito.
Esta penumbra é lenta e não dói;
flui por um manso declive
e se parece à eternidade.
Meus amigos não têm rosto,
as mulheres são aquilo que foram há tantos anos,
as esquinas podem ser outras,
não há letras nas páginas dos livros.
Tudo isso deveria atemorizar-me,
mas é um deleite, um retorno.
Das gerações dos textos que há na terra
só terei lido uns poucos,
os que continuo lendo na memória,
lendo e transformando.
Do Sul, do Leste, do Oeste, do Norte
convergem os caminhos que me trouxeram
a meu secreto centro.
Esses caminhos foram ecos e passos,
mulheres, homens, agonias, ressurreições,
dias e noites,
entressonhos e sonhos,
cada ínfimo instante do ontem
e dos ontens do mundo,
a firme espada do dinamarquês e a lua do persa,
os atos dos mortos,
o compartilhado amor, as palavras,
Emerson e a neve e tantas coisas.
Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro,
a minha álgebra e minha chave,
a meu espelho.
Breve saberei quem sou.
 

 

 

(Jorge Luis Borges)

 

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que a minha janela
se abria para um chalé. Na ponta do
chalé brilhava um grande ovo de louça
azul. Nesse ovo costumava pousar um
pombo branco. Ora, nos dias límpidos,
quando o céu ficava da mesma cor do
ovo de louça, o pombo parecia pousado
no ar. Eu era criança, achava
essa ilusão maravilhosa, e sentia-me
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela
dava para um canal. No canal oscilava
um barco. Um barco carregado de
flores. Para onde iam aquelas flores?
Quem as comprava? Em que jarra, em que
sala, diante de quem brilhariam, na sua
breve existência? E que mãos as tinham
criado? E que pessoas iam sorrir
de alegria ao recebê-las? Eu não era
mais criança, porém minha alma ficava
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela
se abria para um terreiro, onde uma
vasta mangueira alargava sua copa
redonda. À sombra da árvore, numa
esteira, passava quase todo o dia
sentada uma mulher, cercada de
crianças. E contava histórias.
Eu não a podia ouvir, da altura
da janela; e mesmo que a ouvisse,
não a entenderia, porque isso foi
muito longe, num idioma difícil.
Mas as crianças tinham tal expressão
no rosto, e às vezes faziam
com as mãos arabescos tão
compreensíveis, que eu participava
do auditório, imaginava os assuntos
e suas peripécias e me sentia
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
 

 

 

(Cecília Meireles)

 

A Lua

Há tanta solidão nesse ouro.
A lua das noites não é a lua
do primeiro Adão. Os longos séculos
da vigÍlia humana encheram-na
de antigo pranto. Olha para ela. É o teu espelho.
 

 

 

(Jorge Luis Borges)

Viagem

 

 

 

 

 

 

Poema do Amor Perfeito

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia…

Longe, longe… Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

 

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

Cantiga Pequenina

A noite é linda, Isabella,
quando serve de acalanto
ao dia que vai nascer.
É feia a noite, Isabella,
quando a sombra esgarça a festa
do verão no amanhecer.
Estou no centro da noite:
comigo, na minha mão,
a canção da tua vida
me ensinando a caminhar
na mais clara direção
do homem: saber amar.

 

(Thiago de Mello)

 

 

 

 

O anjo que renasce com a tua luz, a forma
obscura do seu voo, o canto abstrato
que o envolve, são os motivos do meu canto.

Podia não saber que um anjo tem a figura
do espaço, no azul mais fundo do meio-dia,
ou na treva para que a noite nos arrasta.

É de onde um bater de asas celeste se ouve
que tudo começa, como quando te vejo sair
dessa esquina de memória em que te escondo.

Partilho com esse anjo uma refeição de salmos,
e perguntas-me se é isso que espero da vida,
ou até onde poderei adiar a minha morte.

«Não dependem de nós as últimas decisões»,
digo-te, olhando o vazio nos olhos brancos do
anjo que resolve um último problema de xadrez.

E enxoto-o para o seu ninho de nuvens: é
contigo que tenho de resolver as dúvidas do
absoluto, as linhas sem saída do infinito,

o azul e a treva que me pões em frente,
com as tuas mãos pousadas no tampo do segredo,
para que eu abra a caixa dos sentimentos.

 

(Nuno Júdice)

 

 

 

 

Na terra em que tudo dorme
o sonho é a única matéria
que separa os dias das noites –

une e separa.

O tema é simples quem espera
que o barco do sono seja na vida
o melhor veículo verá que em breve

o fruto cai.

Os frutos visíveis e os invisíveis
que nada sabem da velha árvore
onde nasceram e de onde caíram

para nunca mais.

Pois o acaso é mãe das coisas
e multiplica-se em dez mil quedas
como se houvesse um espécie de luz

na cascata escura.

 

(Casimiro de Brito)

 

 

 

 

Vêm de um céu antigo, um céu
talvez de ficção. Vejo-as chegar,
vejo-as partir. São aves
de passagem, não lhes sei o nome.
Têm como eu pouca realidade.
Seguem a direção do vento,
rumo a sul, chamadas
pela cal ardendo sobre o mar.
É difícil, a nostalgia;
naturalmente mais difícil quando
o tempo fere o nosso olhar
e o priva do que fora mais seu:
a nudez musical da luz primeira.
Mas de que falo eu, se não forem aves?

 

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

Viagem

Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.

A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.

Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.

 

(Helena Kolody)