Femininos

(Hexagrama 56)

A Montanha A Noite A Lua e
O Viajante Estrangeiro e
O Capim A Ocasião e
O Fogo sobre A Montanha e
O Clarão Intenso O Instante e
A Paixão Consumida e
O Viajante Inquieto A Estrada e
A Busca de novo e
A Noite de volta e
A Montanha Imóvel e
A Lua Brilhante outra vez 

 

 

 

 

HunterMoonAlpsDeRosa900

 

 

 

 

Balada…

A moça dizia à lua
Minha carne é cor-de-rosa
Não é verde como a tua
Eu sou jovem e formosa.
Minhas maminhas – a moça
À lua mostrava as suas –
Têm a brancura da louça
Não são negras como as tuas.
E ela falava: Meu ventre
É puro – e o deitava à lua
A lua que o sangra dentro
Quem haverá que a possua?
Meu sexo – a moça jogada
Entreabria-se nua –
É o sangue da madrugada
Na triste noite sem lua.
Minha pele é viva e quente
Lança o teu raio mais frio
Sobre o meu corpo inocente…
Sente o teu como é vazio.

 

 

(Vinícius de Moraes)

 

 

 

Vulcões

Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.

No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!

No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…

Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!

 

 

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

A pintora

Hoje de tarde
pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas
e comecei a chorar,
até me lembrar de que podia
falar sem mediação com o próprio Deus
daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.
Me agarrei aos seus pés:
Vós sabeis, Vós sabeis,
só Vós sabeis, só Vós.
O bagaço da laranja, suas sementes
me olhavam da casca em concha
na mão seca.
Não queria palavras pra rezar,
bastava-me ser um quadro
bem na frente de Deus
pra Ele olhar.

 

 

(Adélia Prado)

 

 

 

Epigrama

Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

 

 

(Cecília Meireles)

A Lírica Feminina

 

 

 

 

 

 

 

Então a lírica poética tem gênero? Tem, quando se fala na poesia contemporânea da espanhola Amalia Bautista, na poesia neo-romântica da portuguesa Florbela Espanca e na inclassificável brasileira Cecília Meireles.

Identifico nessas três poetas latinas de primeira grandeza, cada uma a seu tempo e lugar, todo o entrelaçamento comum ao veio feminino, ou, do que nós nos acostumamos a identicar como o lapidar da pedra que deu forma ao feminino até os dias de hoje.

Sim, porque hoje os gêneros estão sendo redefinidos para categorias menos estanques e menos definitivas de como o foram no passado. Num passado nem tão remoto assim.

Espera-se, hoje, felizmente, maior diálogo e menor antagonismo entre os sexos. Menor antagonismo negativo, bem entendido, porque há vivenciado pelo pós-feminismo uma espécie de antagonismo positivo ao qual não se pretende anular, sendo ele a afirmação da diferença. É ao antagonismo negativo que esperamos ter deixado para trás, sendo este grande causa de sofrimento para homens e mulheres, o verdadeiro engendrador de separações e violência entre os sexos, inclusive as veladas.

Infelizmente parece que o efeito colateral de uma maior e crescente amizade entre homens e mulheres seja uma menor atração entre eles. Nada é perfeito.

De qual mulher as minhas poetisas preferidas falam? O mais interessante é que o tempo e as nacionalidades distintas não as fizeram desiguais ou distantes uma da outra. Ao contrário, é da mesmíssima mulher que elas falam, e a quem dão voz: uma mulher que é sujeito mas se vê reconhecida no olhar masculino como objeto, que se quer como sujeito de relação mas se vê objeto ao se relacionar com os homens de sua vida.

Esse olhar masculino estrangeiro sobre a mulher vem sempre investido de muito poder, é a mulher própria que o investe com essa capacidade para a definír. Principalmente se for o olhar do seu homem, pois é no olhar do seu amante que o real e o imaginário mais se misturam.

Versos de uma quadra de Florbela Espanca: “Há em tudo quanto fitas/ Pureza igual à dos céus/ Até são belos meus olhos/ Porque lá pousam os teus”. Invariavelmente o amante é idealizado, mesmo sendo o homem real e um passageiro na vida da mulher, será eterno e absoluto no seu imaginário. Talvez porque contenha justamente essa capacidade de definição dela própria.

Se isso é bom ou mau, se é verdadeiro para todas as mulheres, é uma discussão que nesse breve espaço poético de reflexão não cabe. Basta que seja reconhecida essa realidade histórica da condição feminina de desamparo (hoje emocional) frente ao seu masculino engendrador. E que Amalia, Florbela e Cecília, como ninguém, dão por testemunho através de suas poesias. Poesias que apesar de modernas são também dramáticas, por vezes trágicas…

Quais anseios, desalentos, medos e esperanças tem a mulher hoje? A mulher é frágil? Continua alienada como se supunha era antes? Nem tanto assim, nem tão diferente ou distante assim. Eu não creio que terá a mulher – em qualquer tempo e lugar – anseios, desalentos, medos e esperanças muito diferentes dos do homem.

Que estranha criatura é a mulher, e, podemos concluir, que estranhos seres são os homens, e, toda a nossa comum e absurda humanidade.

Por que mulher se conjuga no singular e homem no plural?

 

 

XI

Trinta raios cercam o eixo:
a utilidade do carro consiste no seu nada.
Escava-se a argila para modelar vasos:
a ultilidade dos vasos está no seu nada.
Abrem-se portas e janelas para que haja um quarto:
a utilidade do quarto está no seu nada.

Por isso o que existe serve para ser possuído
e o que não existe, para ser útil.

Lao-Tzu in Tao-Te King

 

 

 

 

 

 

Ida e volta

Quando nos encaminhamos para o amor
todos vamos ardendo.
Levamos amapolas nos lábios
e uma centelha de fogo no olhar.
Sentimos que o sangue
nos golpeia as têmporas, as pelves, os pulsos.
Damos e recebemos rosas vermelhas
e vermelho é o espelho do quarto na penumbra.

Quando voltamos do amor, vagarosos,
desprezados, culpados
ou simplesmente estupefatos,
regressamos muito pálidos, muito frios.
Com olhos e cabelos envelhecidos e o número
de leucócitos nas alturas,
somos um esqueleto e sua derrota.

Porém continuamos indo.

(Amalia Bautista)

 

 

 

 

Até quando terás,
minha alma,
esta doçura

Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar…?

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

 

Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giraram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que tu certamente vinhas.

Eu te esperei todos os séculos,
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto.

Quando as ondas te carregaram,
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro dessas águas sem fim.

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…”

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

?

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos!
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar braços para os alcançar?

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

 

 

Conta-me outra vez

Conta-me outra vez, é tão encantador
que não me canso de ouvir.
Repete-me outra vez que o casal
do conto foi feliz até morrer,
que ela não foi infiel, que a ele sequer
ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar dos problemas,
continuavam se beijando toda noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais bonita que conheço.

(Amalia Bautista)

 

 

 

 

Canção a caminho do céu

Foram montanhas? foram mares?
foram os números…? – não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei.

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? maré brava?
E era por ti!

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho, alto e perdido,
– e o encantamento arrependido
do meu amor.

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

 

Agora

Agora que o caminho que devo percorrer
é um passo adiante sobre uma trilha
que dá medo olhar, porque o abismo
implacável me chama.
Agora que foi morta a esperança
como um pássaro vitimado no ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é de noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
para onde olhar, onde voltar os olhos,
que não encontrem os olhos da morte?

 (Amalia Bautista)

 

 

 

 

A Partida

Duas mulheres jogavam as cartas.
Eram as duas formosas e perversas.
As duas trapaceavam. A partida
prolongava-se mais do que o costume,
a julgar pelos gestos de impaciência
que nenhuma ocultava. Vida e Morte
se chamavam. E tinham apostado
o coração de um homem, como sempre.

(Amalia Bautista)

 

 

 

 

 

 

Eu

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… E não me via!

Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

Aceitação

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos,

É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

 

Eu…

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber por quê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

IX

Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma…
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma…
– Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias…

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas…
Sobre o meu coração pesam montanhas…
Olho assombrada as minhas mãos vazias…

(Florbela Espanca)

 

 

 

 

 

 

Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

Nudez de mulher

Para ti nunca fui mais que um pedaço
de mármore. Esculpiste no meu corpo
um corpo de mulher branco e bonito,
nele não vislumbraste mais que pedra
e o orgulho, esse sim, de teu trabalho.
Jamais imaginaste que te amava
e que me estremecia, quando, doce,
moldavas meus seios e meus ombros,
ou alisavas minhas coxas e meu ventre.

(Amalia Bautista)

 

 

 

 

 

 

Fotos de Howard Schatz

As traduções de Amalia Bautista são minhas – menos a última que encontrei na Internet sem menção ao seu tradutor. Não as fiz com muita precisão, aceito sugestões de como melhorá-las ou indicações de outras traduções de melhor qualidade. Os originais estão aqui:

 

 

 

IDA Y VUELTA

Cuando nos dirigimos al amor
todos vamos ardiendo.
Llevamos amapolas en los labios
y una chispa de fuego en la mirada.
Sentimos que la sangre
nos golpea las sienes, las ingles, las muñecas.
Damos y recibimos rosas rojas
y rojo es el espejo de la alcoba en penumbra.

Cuando volvemos del amor, marchitos,
rechazados, culpables
o simplemente absurdos,
regresamos muy pálidos, muy fríos.
Con los ojos en blanco, más canas y la cifra
de leucocitos por las nubes,
somos un esqueleto y su derrota.

Pero seguimos yendo.

 

CUÉNTAMELO OTRA VEZ

Cuéntamelo otra vez, es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta la muerte,
que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla.  Y no te olvides
de que, a pesar de los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil veces, por favor:
es la historia más bella que conozco.

 

AHORA

Ahora que el camino que debo recorrer
es un paso elevado sobre una carretera
que da miedo mirar, porque el abismo
implacable me llama.
Ahora que se ha muerto la esperanza
como un pájaro echado de su nido
por hermanos más fuertes.
Ahora que es de noche todo el día,
invierno todo el año
y las semanas sólo tienen lunes,
¿dónde mirar, dónde volver los ojos,
que no encuentre los ojos de la muerte?

 

LA PARTIDA

Dos mujeres jugaban a las cartas.
La dos eran hermosas y perversas.
Las dos hacían trampas. La partida
se prolongaba más que de costumbre,
a juzgar por los gestos de impaciencia
que ninguna ocultaba. Vida y Muerte
se llamaban. Y habían apostado
el corazón de un hombre, como siempre.

 

DESNUDO DE MUJER

Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en el que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
Jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.

Hoy estoy en un parque, donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.

Pero, de todo, lo que más me duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
«Desnudo de mujer», como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.

 

 

 

Sob o céu…

 

Pingas de Chuva

 

Caem,

gordas, sonoras,

monótonas pingas de chuva,

– espaçadas –

e indolentes

vão marcando uma toada:

ping pang – ping pang,

as pingas

chuva de Outono pardo.

Espapaçada

a terra mole absorve

as vagas de chuva densa

que lenta

vai caindo,

em pingas grossas,

sonoras.

E ao cair,

a chuva bate o compasso

com o som dum contrabasso…

ping…

pang…

ping…

pang…

 

 

(Adolfo Casais Monteiro)

 

 

 

Noite de Chuva

 

Chuva… Que gotas grossas!… Vem ouvir:

Uma… duas… mais outra que desceu…

É Viviana, é Melusina a rir,

São rosas brancas dum rosal do céu…

 

Os lilases deixaram-se dormir…

Nem um frêmito… a terra emudeceu…

Amor! Vem ver estrelas a cair:

Uma… duas… mais outra que desceu…

 

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,

Que essa fala de amor seja um gemido,

Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito…

 

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!

E a mim… o teu amor que mal existe,

Chuva a cair na noite do meu peito!

 

 

(Florbela Espanca)

 

 

 

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.

Ambos existem; cada um como é.
 

 

(Alberto Caeiro)

 

Florbelas pra dizer “que vejo flores em você”

.

O nosso livro

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito…
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
“Versos só nossos, só de nós os dois!…”

.

Rústica

Eu queria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha…

Levar o cântaro à fonte,
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho…

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
Dos olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
Pelos caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir para o monte:
“O cântaro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu…”

.

Os dois poemas são da apaixonada e atormentada poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930).

O primeiro poema, “O nosso livro”, publicado pela primeira vez em 1923, em o Livro de “Sóror Saudade”, foi a última publicação em vida da autora.

O segundo poema, “Rústica”, do caderno Trocando Olhares, pertence a uma coletânea dos primeiros poemas de Florbela organizada por Maria Lúcia Dal Farra, e foi publicado numa primeira edição, em 1994, pela editora Martins Fontes, justo no centenário de nascimento da poetisa.

Outra curiosidade com as datas, esse segundo poema, “Rústica”, segundo Dal Farra, foi escrito em 18 de julho de 1916. Hoje, portanto, completa 94 anos de existência. Parabéns pra ele! Tão alegre e jovial, não aparenta a idade que tem.

Falando em primeiros e últimos, em datas redondas, a música a que se refere o meu título está aqui, na sua primeira versão e com os inusitados violinos, em minha opinião, é a melhor: “Flores em Você”, da extinta banda paulistana “Ira!”

O desenho é da caricaturista portuguesa Maria Almira Medina.

A borboleta sou eu e a flor é você, ou é o contrário?

Bendições ou…

.

viva eu

.

Só a Natureza é divina, e ela não é divina…

Se falo dela como de um ente
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que dá personalidade às coisas,
E impõe nome às coisas.

Mas as coisas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande e a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado…

Bendito seja eu por tudo quanto não sei.
Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.

(Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos)

.

viva tu

.

Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar
Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio d’ave!

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!

(De Joelhos, Florbela Espanca)

.

viva o rabo do tatu!

.

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano…

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

(Beneditice, Olavo Bilac)

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Céu da boca

.

Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro,
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E de minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!

Florbela Espanca

.