Gênese

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Princípio é aquilo que nos conduz a um fim:

No princípio era a ausência e a ausência se tornou presença
E a presença quis ser conhecida e se tornou semente de conhecimento
E a semente de conhecimento quis vir ao mundo e se tornou broto
E o broto quis crescer e se tornou flor
E a flor quis ser amada e se tornou fruto
E o fruto quis ser eterno e voltou a ser semente
E da semente do fruto da flor do broto da presença da ausência
Veio a árvore do conhecimento.

 

 

 

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Self

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cerco o cerne da coisa com palavras.
Não apenas palavras, intenções.

Cerco a coisa em círculos.
Dou-lhe voz, palavras que se intensificam.

Cerco-a de atenções.
Falo, falo, e me esqueço do primeiro ao arco.

Ajo. Ajo e me perco na ação.
Esqueço-me da coisa sem palavras.

Ando em círculos.
Repito: somente o perdido se encontra.

Digo e repito: ouro é reverberar.
No entanto o não dito é que cala.

 

 

Antisself

 

 

 

 

 

 

 

Bem-vindo é o ar que vem de fora
Porque aqui dentro estamos muito sufocados

Viagens ao centro do Eu intrincado
Narcisismos disfarçados de autoestima

Acordamos hoje nos sentindo sós
Os olhos fartos de acontecimentos internos

Estivemos ardendo na pira do autoconhecimento
Rolando nos sulcos deixados pelo Arquétipo

Mas estamos cansados de atender ao d’Eus exigente
Que nos reivindica sacrifífios mais e mais sangrentos

Amor-próprio, oh, tão necessário
E supérfluo quando realmente se ama

O que realmente importa não somos nós, mas o todo
Embora sem nós não exista o todo, quiça nem Deus

 

 

P.S: Um feliz 2018 com excelentes escolhas para todos nós. :)

O Julgamento

O espírito dessa época é não divino; o espírito da profundeza é não divino; a balança é divina.

Carl Gustav Jung

in O Livro Vermelho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Grão Imprestável

 

Leu com o olho direito
E o esquerdo ficou esquecido

Ouviu atento em parte
Sem compreender a oração

No caminho foi até a metade

E assim foi fazendo
Nunca pleno
Somente a metade

Assim será condenado
Meia semente não germina

 

 

 

Era uma vez…

A resposta à vida humana não se encontra dentro dos limites da vida humana.

Carl Gustav Jung
in O Livro Vermelho

 

 

 

 

 

 

Três poemas incompletos passeavam num bosque
e falavam animadamente de como esperavam pelo dia
de concluir-se: o primeiro dizia de um rio extinto
e de tatuagens de peixes riscadas no leito seco;
o segundo deliberava sobre os ecos de uma floresta
antiga, tão antiga que guardava o segredo do tempo
e sabia de mistérios de mil vidas; o terceiro
e mais simples dos três, só falava do céu.
Tão entretidos estavam em suas falas e versos
que não perceberam quando a sombra má
se aproximou. E era uma sombra densa e
rancorosa, impenetrável em sua solitude.
E foi com uma sede voraz que ela tomou
de assalto o rio seco. Não satisfeita, cobriu
de pestilências a floresta milenar e só foi parar
quando finalmente empalideceu o céu. Ela sabia –
a sombra sabia que tornava o mundo mais triste
sem a poesia, mas, não conseguia evitar, tamanho
era o seu desassossego, de entristecer as alegrias.

E essa foi a história dos três poemas que nunca
chegaram ao fim. Não o fim da história, que nunca
acaba, ou que só se acaba quando outra começa:
quando a sombra, redimida, ruma ao deserto
em busca de sua alma perdida. Moral da história:
acredite em finais felizes e faça a sua casa de pedras.