Astropoema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre gostei de poesia
mas lia o Fernando como se lia a Lia
com o intelecto impuro

 

Daí aconteceu aquela progressão
para um grau que dizia: “uma tartaruga
na areia com o casco virado”

 

E já não leio mais as páginas cinzas
nem a terra é fria sob o céu
indiferente

 

Agora tudo é azul profundo
poço sem fundo
abismo de Plutão

 

 

 

 

Esperança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

escrevo
poemas transferíveis e impessoais
na esperança de que alguém os adote
como seus
exclusivamente seus
intransferíveis e pessoais

 

 

 

Paint Mihail Korubin

Com o peso da poesia

 

Um dos mistérios da poesia é que uma coisa só se parece com ela
quando comparada a outra.

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma metáfora
com o peso
da poesia
desabou do céu.

 
Bueiros
entupidos
de corrupção
alagaram as ruas.

 
Os danos
são incalculáveis.
Era previsível.
Não culpem a metáfora.

 
O cerne da problemática
está na cidade
alienada
da poesia.

 

 

 

Memórias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vindas de longe
De não se sabe onde
Carregadas pelo vento
Arrependidas
Querendo esquecer
À luz daquela tarde parece que diziam – sou céu

E na vaga calmaria de fim de um dia
Feito balões de gás que murcham
Esvaziadas
Queriam ficar
Fincar raízes para nunca ter que voltar
Bebendo daquele chão diziam – sou terra

Esquecidas
De tanto não ser
Queriam ser assim qualquer coisa
Qual a luz que circula e encanta o mundo
A luz que banha a lua
Então diziam ser o sol

Haaaahr
Se pudessem existir
Se alguém as pudesse ouvir
Ouviriam-se ecos de frases perdidas
E saberia-se ser o vento
Apenas o vento revolvendo memórias