Deitando as Cartas…

recriando a coragem

onde se debate o escamado da verdade…

 

 

 

 

 

A Roda da Fortuna

Tudo mentira!  Mentira da lua
na noite escura.

A Roda da Fortuna

purple center

 

 

 

 

 

Carl Orff – Fortune Plango Vulnera

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.

(João Cabral de Melo Neto)

 

 

 

 

 A Torre

Tudo cai, tudo tomba,
derrocada pavorosa!

A Torre

 11257694_bacdd5dfe7_o

 

 

 

 

PH Lima – O Bandido do Rio

Quanto tempo
Duram as obras? Tanto
Quanto o preciso para ficarem prontas.
Pois enquanto dão o que fazer
Não ruem.

(Bertold Brecht)

 

 

 

 

 O Louco

Viva! Viva os loucos
que inventaram o amor!

O_Tolo

coyote

 

 

 

 

 

Elis Regina – O Trem Azul

Quisera eu ser dona, mandante da verdade inteira e nua,
que nua, consta a sabedoria popular, está ela no fundo de um poço fundo,
e sua irmã mentira foi a que ficou em cima beradiando.

Quem dera a mim esse poder, desfaçatez, coragem de dizer verdades…
Quem as tem? Só o louco varrido que perdeu o controle das conveniências.
Conveniências… palavras assim de convênio, de todos combinados,
força poderosa encabrestando a verdade.

Conveniência… irmã gêmea do preconceito, encangados os dois,
puxando a carroça pesada das meias-verdades.
Confissões pela metade…
Quem sou eu para as fazer completas?

(…)

(Cora Coralina)

 

 

 

 

 O Eremita

O_Eremita

135963028_7d9a2b1a07

 

 

 

 

 

Elza Soares – Paciência

A minha tristeza
não é a do lavrador sem terra.
A minha tristeza
é a do astrônomo cego.

(Mia Couto)

 

 

 

 

 O Mago

A realidade é vajra!

O_Magus

8562560422_5e335a1b03_c

 

 

 

 

 

Era – Divano

Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos
mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta de arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.

(Adélia Prado)

 

 

 

Frutos

 

 

LOUVOR

Balanced rocks at sunrise

GRATIDÃO

 

 

 

 
A bondade da mangueira
não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore.

A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta.

 

 

 

 

Mia Couto

end_of_summer

Nascimento do Outono

 

 

antes de dormir

dois ou três haikais

prece sem pressa

 

Alonso Alvarez

 

 

 

Silêncio

 

 

Assim como do fundo da música

brota uma nota

que enquanto vibra cresce se afina

até que em outra música se cala,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, torre aguda, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto sobe caem

recordações, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

o grito se desmancha:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

 

 

 

Octavio Paz

 

 

 

Sementeira

 

 

O poeta

faz agricultura às avessas:

numa única semente

planta a terra inteira.

 

Com lâmina de enxada

a palavra fere o tempo:

decepa o cordão umbilical

do que pode ser um chão nascente.

 

No final da lavoura

o poeta não tem conta para fechar:

ele só possui

o que não se pode colher.

 

Afinal,

não era a palavra que lhe faltava.

 

Era a vida que ele, nele, desconhecia.

 

 

 

Mia Couto

 

 

 

Pequenas Coisas

 

 

Falar do trigo e não dizer

o joio. Percorrer

em voo raso os campos

sem pousar

os pés no chão. Abrir

um fruto e sentir

no ar o cheiro

a alfazema.

 

Pequenas coisas,

dirás, que nada

significam perante

esta outra, maior: dizer

o indizível. Ou esta:

entrar sem bússola

na floresta e não perder

o rumo. Ou essa outra, maior

que todas e cujo

nome por precaução

omites. Que é preciso,

às vezes,

não acordar o silêncio.

 

 

 

Albano Martins

Cruzamentes

 

 

 

 

 

 

 

Silvestre e o Idioma

Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.

Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.

Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.

É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem
cabimento em nenhum idioma.

Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebatizara, vezes sem fim.

Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.

(Mia Couto)

 

 

 

 

 

 

Primavera

Ah, quem nos dera que isto, como outrora,
inda nos comovesse! Ah! quem nos dera
que inda juntos pudéssemos agora
ver o desabrochar da primavera.

 

Os Perigos do Verão

Era o verão, o seu desassossego.
Era o desejo,
o desejo rompendo da sombra
sem caminho, e doía.

 

Saíamos com os pássaros e a aurora.
E, no chão, sobre os troncos cheios de hera,
sentavas-te sorrindo, de hora em hora:
“Beijemo-nos! amemo-nos! espera!”

 

Era o ardor, o mais diáfano
irmão da melancolia.

 

E esse corpo de rosa rescendia,
e aos meus beijos de fogo palpitava,
alquebrado de amor e de cansaço…

 

Era o amor, o espanto
do amor, desarmado
e sem abrigo.

 

A alma da terra gorjeava e ria…
Nascia a primavera… E eu te levava,
primavera de carne, pelo braço!

(Olavo Bilac)

 

Era o deserto, o deserto à porta;
e fervia.

(Eugénio de Andrade)

 

 

 

 

 

que viagem
ficar aqui
parada

(Alice Ruiz)

 

 

 

 

 

 

Cantar

Cantar de beira de rio:
Água que bate na pedra,
pedra que não dá resposta.

A Viagem

Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

 

Noite que vem por acaso,
trazendo nos lábios negros
o sonho de que se gosta.

 

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

 

Pensando no caminho
pensando o rosto da flor
que pode vir, mas não vem

 

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
de meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

 

Passam luas – muito longe,
estrelas – muito impossíveis,
nuvens sem nada, também.

 

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

(João Cabral de Melo Neto)

Cantar de beira de rio:
o mundo coube nos olhos,
todo cheio, mas vazio.

(…)

(Cecília Meireles)

 

 

 

 

 

 

Um dia voltarei à morada das papoulas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.

(Albano Martins)

Da Pedra ao Cosmos

 

 

 

PEQUENA ODE MINERAL

 

Desordem na alma

que se atropela

sob esta carne

que transparece.

 

Desordem na alma

que de ti foge,

vaga fumaça

que se dispersa,

 

informe nuvem

que de ti cresce

e cuja face

nem reconheces.

 

Tua alma foge

como cabelos,

unhas, humores,

palavras ditas

 

que não se sabe

onde se perdem

e impregnam a terra

com sua morte.

 

Tua alma escapa

como este corpo

solto no tempo

que nada impede.

 

Procura a ordem

que vês na pedra:

nada se gasta

mas permanece.

 

Essa presença

que reconheces

não se devora

tudo em que cresce.

 

Nem mesmo cresce

pois permanece

fora do tempo

que não a mede,

 

pesado sólido

que ao fluido vence,

que sempre ao fundo

das coisas desce.

 

Procura a ordem

desse silêncio

que imóvel fala:

silêncio puro,

 

de pura espécie,

voz de silêncio,

mais do que a ausência

que as vozes ferem.

 

 

 

João Cabral de Melo Neto

 

 

 

 

VIAGEM

 

O beijo da quilha

na boca da água

me vai trocando entre céu e mar,

o azul de outro azul,

enquanto

na funda transparência

sinto a vertigem

da minha própria origem

e nem sequer já sei

que olhos são os meus

e em que água

se naufraga minha alma

 

Se chorasse, agora,

o mar inteiro

me entraria pelos olhos

 

 

 

Mia Couto

 

 

 

 

A MESMA CANÇÃO

 

A sensação que tens

é de que tudo

quanto dizes já o leste

noutros livros. Mas

depois consideras: também

o sol e os pássaros

repetem todos os dias

a mesma canção.

 

 

 

Albano Martins

 

 

 

 

 

 

 

Destino do Poeta

- Eu vi uma lua no céu.

- Eu vi o sol no mar.


 

 

 

Poema da despedida

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,
escrevo
 

 

 

(Mia Couto)

 

 

 

 

Destino del Poeta                                                                Destino do Poeta

¿Palabras? Sí, de aire,                                                                                                                            Palavras? Sim. De ar
y en el aire perdidas.                                                                                                                             e perdidas no ar.

Déjame que me pierda entre palabras,                                                                                          Deixa que eu me perca entre palavras,
déjame ser el aire en unos labios,                                                                                                    deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
un soplo vagabundo sin contornos                                                                                                 um sopro erramundo sem contornos,
que el aire desvanece.                                                                                                                           breve aroma que no ar se desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.                                                                                            Também a luz em si mesma se perde.
 

 

 

(Octavio Paz)

Tradução – impecável – de Haroldo de Campos

 

 

 

 

Exercício

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.
 

 

 

(Nuno Júdice)

 

 

 

 

Como um rio

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar no límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.
 

 

 

(Thiago de Mello)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mar & Flor

A prosa e a poesia de Mia Couto

 

 

 

 

 

Mar-me-quer

 

Lançamos o barco, sonhamos a viagem:
quem viaja é sempre o mar.

(Dito do meu avô Celestiano) 


Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí
fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar
um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.
Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha,
estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha
ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona:
quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os
sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão
marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse
embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios
submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou
criança dele, do mar.

 

 

 

 

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

 

 

 

(Mia Couto)