Com o peso da poesia

 

Um dos mistérios da poesia é que uma coisa só se parece com ela
quando comparada a outra.

(Mario Quintana)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma metáfora
com o peso
da poesia
desabou do céu.

 
Bueiros
entupidos
de corrupção
alagaram as ruas.

 
Os danos
são incalculáveis.
Era previsível.
Não culpem a metáfora.

 
O cerne da problemática
está na cidade
alienada
da poesia.

 

 

 

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Valeu…

 

 

 

 

 

 

 

 

Dois namorados olhando o céu
Chegam a mesma conclusão
Mesmo que a terra não passe da próxima guerra
Terra, mesmo assim valeu
Valeu encharcar esse planeta de suor
Valeu esquecer das coisas que eu sei de cor
Valeu encarar essa vida que podia ser melhor
Valeu, valeu…

 

 

 

Paulo Leminski

Memórias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vindas de longe
De não se sabe onde
Carregadas pelo vento
Arrependidas
Querendo esquecer
À luz daquela tarde parece que diziam – sou céu

E na vaga calmaria de fim de um dia
Feito balões de gás que murcham
Esvaziadas
Queriam ficar
Fincar raízes para nunca ter que voltar
Bebendo daquele chão diziam – sou terra

Esquecidas
De tanto não ser
Queriam ser assim qualquer coisa
Qual a luz que circula e encanta o mundo
A luz que banha a lua
Então diziam ser o sol

Haaaahr
Se pudessem existir
Se alguém as pudesse ouvir
Ouviriam-se ecos de frases perdidas
E saberia-se ser o vento
Apenas o vento revolvendo memórias