Valeu…

 

 

 

 

 

 

 

 

Dois namorados olhando o céu
Chegam a mesma conclusão
Mesmo que a terra não passe da próxima guerra
Terra, mesmo assim valeu
Valeu encharcar esse planeta de suor
Valeu esquecer das coisas que eu sei de cor
Valeu encarar essa vida que podia ser melhor
Valeu, valeu…

 

 

 

Paulo Leminski

Memórias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vindas de longe
De não se sabe onde
Carregadas pelo vento
Arrependidas
Querendo esquecer
À luz daquela tarde parece que diziam – sou céu

E na vaga calmaria de fim de um dia
Feito balões de gás que murcham
Esvaziadas
Queriam ficar
Fincar raízes para nunca ter que voltar
Bebendo daquele chão diziam – sou terra

Esquecidas
De tanto não ser
Queriam ser assim qualquer coisa
Qual a luz que circula e encanta o mundo
A luz que banha a lua
Então diziam ser o sol

Haaaahr
Se pudessem existir
Se alguém as pudesse ouvir
Ouviriam-se ecos de frases perdidas
E saberia-se ser o vento
Apenas o vento revolvendo memórias

 

 

 

Escritor

 

 

 

 


  

 

 

 

 

 

 

 

Seu equívoco era permanecer num corredor de passagem
Papéis voavam enquanto
Escrevia
Eventualmente choviam
Sua sina era criar lugares errados para personagens azados
Sempre faminto
Escrevia
Em tinta permanente agora mesmo discorria
No papel vagabundo
A cena
Em que a garoa fina
Dissolvia
O que a menina alegre desenhava
Dissolvia casas ruas flores caminhos árvores
Dissolvia o lápis e a mão da menina
E com ela iam-se os folguedos
As histórias e os poemas que um dia se teriam
A garoa dissolvia
Os papéis
Os livros futuros
As vidas e os mundos dos livros
Bibliotecas
Inteiras.

 

Digital artworks Christian Schloe

Im-previstos

 

 

 

 

bluethoughts

flat550x550075f-u1

 

tothemoonandback

 

themoon

 

 

 
As prateleiras estão repletas
de acasos
Aqui, um tropeço
Ali, um trevo de quatro folhas

Mais que repletas, estão caóticas
O egoísmo descansa bem ao lado do reconhecimento
A beleza junto à miopia

Estão desorganizadas
As luvas da memória, um de seus pares se perdeu
Coberto pelo pó e esquecimento

E superstições vão por todos os lados
Despachos se querem justos
Rezas se dizem sinceras
Provas se proclamam científicas

Sim, as prateleiras estão repletas
de acasos
Por qual outra razão Deus teria dado ao homem
Determinismo e livre-arbítrio?
 

 

Artworks by Catrin Welz-Stein

Pré-eclipse

 

 

 

 

 

 

Arte Poética

Que golpeie e golpeie
até que ninguém
possa se fazer de surdo
que golpeie e golpeie
até que o poeta
escute
ao fim acredite
que é a ele que chamam.

 

 

 

(Mario Benedetti)

 

 

 

 

 

 

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco

 

 

 

(Sophia de Mello Breyner Andresen)