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Era uma vez…

 

 

 

Ben Heine

 

 

 

A linha

 

A gente chega ao fim

sem compreender bem

porque chegou

e eu não sei como

mas foi assim que

chegamos ao fim

da linha ilusória

que durante um tempo

foi o fio que tivemos

como horizonte

 

Daqui para a frente

cabe à geografia

de outro tempo

definir se a nova linha

será reta ou curva

se a costura invisível

entre o céu e a terra

será azul ou verde

 

Porque o mundo é real

apesar de por nós continuamente imaginado

 

E sabemos

que nada

é sem limite

que até a estrela

mais distante

tem o seu formato e a sua cor

que são características

de sua existência real

e não de desejos

 

Então, chegamos ao fim

sabendo que somos nós

e não o mundo

que sempre fomos nós

e não a natureza

que o que morre

nunca é a realidade

mas o que um dia sonhamos…

 

 

 

(Juçana Corrêa)

Rosa do Mundo

 

 

 

 

Δ

 

 

Rosa. Rosa do mundo.

Queimada.

Suja de tanta palavra.

 

 

Primeiro orvalho sobre o rosto.

que foi pétala

a pétala lenço de soluços.

 

 

Obscena rosa. Repartida

Amada.

Boca ferida, sopro de ninguém.

 

 

Quase nada.

 

 

 

 

 

 

(Eugénio de Andrade)

Lua…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lua volátil

Instável!

Como a vida

De pomba

Que tens nas mãos.

 

 

 

Juçana Corrêa

Feitos um para o outro

 

 

De dentro a dentro

cinzas
que se pensavam mortas
vivem
no que se pensava fora
e é por dentro
da estrela
que se transforma
a prata
que se transborda
em ouro
para dentro do
sol

 

 

 

 

Juçana Corrêa


PS:

Fábula da Fábula

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era uma vez

Uma fábula famosa,

Alimentícia

E moralizadora,

Que, em verso e prosa,

Toda a gente

Inteligente

Prudente

E sabedora

Repetia

Aos filhos

Aos netos

E aos bisnetos.

À base de uns insetos,

De que não vale a pena fixar o nome,

A fábula garantia

Que quem cantava

Morria

De fome.

E, realmente…

Simplesmente,

Enquanto a fábula contava,

Um demônio secreto segredava

Ao ouvido secreto

De cada criatura

Que quem não cantava

Morria de fartura.

 

 

 

(Miguel Torga)

PS:

Moral da história: de alguma coisa sempre se há de morrer.

Havia uma palavra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula.Ignorada.

 

Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

 

Do fundo do tempo,
martelava.
Contra o muro.

 

Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.

 

 

 

(Eugénio de Andrade)

“Quando a morte se cruza com a beleza”

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, prefiro cantar as coisas simples, as que

crescem depressa, como os ciprestes, ou as

que se enrolam a tudo o que aparece nos muros

como as buganvílias. Através delas, vejo o céu

que me traz outras coisas, mais complicadas

dos que estas da terra; e também no céu

escolho, hoje, o que não é difícil, a nuvem

que há pouco parecia eterna e desapareceu;

ou um branco sujo que apagou o horizonte,

por algum tempo, e fez com que todo o

universo ficasse ao meu alcance para nada.

 

 

 

Mas o que é simples também pode ser o

seu contrário. Há uma lógica no interior

deste movimento que faz crescer o cipreste,

ou empurra a buganvília para o fundo do muro;

e também as nuvens seguem uma direção

precisa, mudando a sua forma à medida que

se afastam dos meus olhos. A verdade deste

mundo encontra-se no próprio acaso que

a determina; e sou eu que tenho de encontrar

as razões para o que não precisa delas,

porque a sua existência se limita a este

perfume de fim de verão, ou à queda

das folhas que se confundem com nuvens.

O mundo é imprevisível como a vida

da borboleta que nasceu de dentro da

buganvília; mas o vento que há pouco soprava,

não me disse nada sobre isso, nem o seu

sopro vago me libertou de folhas e de

nuvens, para que o chão e céu ficassem

limpos. Só a borboleta, no instante do voo,

trouxe a sua luz dissonante para dentro

da natureza; e foi ao encontrá-la,

no meio da terra e das pedras do jardim,

que me apercebi de que nem tudo é simples,

quando a morte se cruza com a beleza.

 

 

 

 

(Nuno Júdice)

4, pelo menos… diria Freud

Sombras de um verão passado

 

 

 

 

 

 

Nós e as Sombras

E em redor da mesa, nós, viventes,
comíamos, e falávamos, naquela noite estrangeira,
e em nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós,
e gesticulavam, sem voz.

 

Éramos duplos, éramos tríplices, éramos trêmulos,
à luz dos bicos de acetilene,
pelas paredes seculares, densas, frias,
e vagamente monumentais.
Mais do que as sombras, éramos irreais.

 

Sabíamos que a noite era um jardim de neve e lobos.
E gostávamos de estar vivos, entre vinhos e brasas,
muito longe do mundo,
de todas as presenças vãs,
envoltos em ternura e lãs.

 

Até hoje pergunto pelo singular destino
das sombras que se moveram juntas, pelas mesmas paredes…
Oh, as sem saudades, sem pedidos, sem respostas…
Tão fluidas! Enlaçando-se e perdendo-se pelo ar…
Sem olhos para chorar…

 

 

 

(Cecília Meireles)

Magia

 

 

 

 

 

 

Pedra Rolada

Esta pedra que apanhaste acaso à beira do caminho
- tão lisa de tanto rolar -
é macia como um animal que se finge de morto.

Apalpa-a… E sentirás, miraculosamente,
a suave serenidade com que os mortos recordam…

Mortos?! Basta-lhes ter vivido
um pouco
para jamais poderem estar mortos

- e esta pedra pertence ao universo deles.

Deposita-a
no chão
cuidadosamente…

Esta pedra está viva!

 

 

(Mario Quintana)

Consumismo

 

 

 

 

 

 

 

Um ano novo inteirinho para a gente gastar…

Feliz Ano Novo!

 

 

 

 

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